segunda-feira, 7 de julho de 2014

How much?

Mari D'Amore

Porque, na vida, nada é suficiente.

Os problemas nunca parecem o bastante. Após o primeiro temos mais um, mais outro e mais outro.

E quando ganhamos mais, gastamos mais e queremos mais e muito mais. E precisamos de mais, é uma matemática simples.

E os sapatos? E os brigadeiros? E os gadgets e fases vencidas no game?

E a bebida?

E o tempo? E o descanso? E o sono?

Nada, mas absolutamente nada é suficiente. Mesmo quando suficiente é o que precisamos, não apenas o que queremos.

Como gostar de alguém. Não é questão de gostar muito ou pouco, mas gostar o suficiente.

A vida não parece suficiente. Estamos sempre em busca de algo. Algo novo, uma mudança ou ainda um resgate de algo do passado. Parece que sempre falta algo que não está ali, mas que deveria estar.

E não adianta buscar a racionalidade e objetividade da vida. É sempre preciso algo a mais. Ou diferente. Ou uma grande troca, desfecho, virada do avesso.

Queremos o emprego, mas o salário é insuficiente. Queremos o apartamento, mas o bairro é insuficiente. Queremos o carro, mas o trânsito é além de suficiente.

Queremos a vida noturna, mas a disposição é insuficiente. Queremos a gastronomia e a cultura, mas o dinheiro é insuficiente. Queremos, buscamos, precisamos, mas não conseguimos, não alcançamos.

Insuficiente parece ser a palavra de ordem de nossas vidas.

Não adianta aplicar teorias e teoremas nesse caso. Somos seres condicionados a estarmos sempre buscando algo e, por isso, a sensação de insuficiência é eterna.

Não acaba. Desanima. Esgota.

Seríamos seres mais elevados se conseguíssemos nos contentar com menos. Mas a questão aqui não é apenas a quantidade, mas também a intensidade.

Uma vez li que em São Paulo as pessoas estão sempre buscando por um emprego, um apartamento ou um namorado.


Pelo menos estou em busca apenas de um. Por esse lado, posso dizer um é o suficiente. Suficiente? Ufa!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Quando o imperfeito é perfeito

Mari D'Amore

Ela dormia pouco e acordava de mau humor.

Exigia o lado esquerdo da cama e ocupava ela quase inteira.

Ela não chorava em filmes ou livros ou músicas. Ela chorava no banho, em um dia qualquer, sem conseguir explicar por quê.

Ela falava muito. E falava alto.

Ela não gostava de Caetano Veloso. Não queria nunca discutir política.

Ela tinha pequenos preconceitos. Ela não sabia lidar com críticas.

Ela gastava demais. Ela queria sempre mais.

Ela acordava querendo praia, almoçava querendo cama e ia dormir querendo dançar a noite toda.

Ela ficava calada quando mais precisava desabafar.

Ela desabafava demais quando deveria calar.

Ela criticava seu corpo. Ela não ia à academia.

Ela não tinha ideais socialistas. Ela não lia Marx, Kant, Jung, sequer Drummond.

Ela exagerava na bebida. Ela dirigia depois de 2 ou 3 cervejas.

Ela não fazia caridade.

Ela reclamava demais. Ela era prepotente.

Ela era independente demais, mas era carente demais. Era contraditória.

Ela não tinha cabelos perfeitos. Ela dormia de sutiã. Ela tinha mania de limpeza.

Ela tinha reações diferentes para o mesmo sentimento. Ela era imprevisível, intempestiva, inconsequente.

Ela estava sempre certa. Ela achava que estava sempre certa.

Ela tinha preguiça. Constantemente.

Ela não aceitava perder, errar, falhar. Ela tinha uma crítica sobre tudo e todos a qualquer momento que pedissem. E mesmo quando não pedissem.

Ela não usaria alianças. Ela não usaria véu. Ela detestava a ideia de ser o centro das atenções.

Ela comia demais. Ela não sabia cozinhar.

Ela queria ser tratada como rainha.

Ela queria ser compreendida nas entrelinhas.

Ela tinha uma resposta para tudo. Ela revirava os olhos quando não aguentava mais alguma coisa.

Ela achava que pensar era o suficiente. E que os outros leriam seus pensamentos.

Ela demonstrava insatisfação. Mas não explicava os motivos.

Ela passava a noite dançando sem dar atenção a ninguém.

Ela tinha mania de falar nada quando deveria gastar todo seu vocabulário. E era prolixa quando ninguém estava com vontade de ouvir.

Ela falava durante os filmes.

Ela detestava surpresas escandalosas, mas queria ser surpreendida. Sempre.

Ela trocava sexo por conversas longas. Ela queria sexo da mais alta qualidade.

Ela ficava nervosa, perdia a razão. Ela gritava quando não tinha mais argumentos.

Ela não gostava de flores, e reclamava que nunca ganhava um buquê.

Ela tinha quinze defeitos para cada qualidade. Mas tinha uma bela meia dúzia de qualidades suficientes para que ele quisesse passar o resto da vida com ela.

Aturando cada problema, cada erro. Se deliciando com duas ou três coisas irresistíveis que ela ostentava.

Porque ela era apenas um punhado de atributos, e por isso era o seu punhado de felicidade. 

Para sempre.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Tudo acaba

Mari D'Amore


Porque até amor acaba.

O tesão se vai. O interesse se desintegra. A curiosidade atinge seu limite.

Aquela vontade de se ver não é mais diária, acontece de vez em quando até que acontece nunca mais.

As perguntas cessam, o frio na barriga se despede, o carinho perde o sentido.

Aquele abraço não faz tanta falta, você não sonha mais com ele todas as manhãs.

O brilho se apaga. A beleza se desfaz. A vontade parece saciada.

Você não pensa mais naquela pessoa assim que acorda, nem sonha mais com ela à noite.

O encanto desaparece, a ansiedade termina, o frio na barriga não se repete.

As lembranças não rondam mais seus pensamentos ao longo do dia, aquela música especial não te faz mais sorrir quando toca.

O ciúme torna-se inexistente. O desassossego finda.

Você não morde mais os lábios quando lembra daquela pessoa. Você sequer se lembra dela com frequência. Você não perde mais a noção do tempo no trabalho, no banho, na caminhada.

A surpresa esgota. A inquietude encerra. O medo não aparece mais.

Você não planeja mais loucuras. Você não chora mais de saudade.

A graça se perde.

Você passa a conseguir viver sem aquela pessoa. Você passa a querer viver sem aquela pessoa.

O amor acaba. E você percebe.

E dói. E desespera. E faz chorar.

E dá saudade. E dá tristeza. E rasga o coração.

E faz você querer mudar tudo. Faz você querer voltar no tempo.

E dói, mais um pouco. Uma hora passa, mas ainda dói. Por muito tempo.

Você só não queria que fosse com você, você só não queria ser “aquela pessoa”.

Mas sabia que esse dia poderia chegar. Sabia que realmente chegaria.

Porque até o amor acaba. E você bem sabia disso.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Um picolé

Mari D'Amore


Não me ofereça um picolé.

Uma picolé doce, pequeno, singelo, breve.

Aquele pequeno agrado para disfarçar uma dor enorme, uma desfeita descabida. Aquele afago depois de me fazer perder o chão.

Um prêmio de consolação.

Um abraço se o que eu quero é um beijo.

Um sorriso quando o que eu quero é a felicidade.

Um elogio quando eu quero amor.

Uma noite quando eu quero uma vida.

Não me ofereça um picolé todas as vezes que não puder estar comigo. Quando subestimar minha inteligência. Quando eu disser que não me sinto bem.

Não me ofereça um picolé quando eu te oferecer minha sinceridade absoluta. Quando eu confessar que preciso de cuidado.

Não me dê um picolé em forma de conselho, quando o que eu preciso é de conforto.

Não me dê um picolé em forma de “estou com saudade” quando o que preciso é de você preenchendo o meu dia.

Não me dê um picolé em forma de desculpas, quando o que eu quero é uma nova atitude.

O picolé me adoça, me alegra, me faz sorrir. Mas por alguns minutos. Não é o bastante. Nunca será.

Não me ofereça um picolé. 

Me deixe chorar minha tristeza, sentir meu amargo, se a doçura do seu gesto for durar apenas 15 minutos.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Escolhendo os potinhos para a vida

Mari D'Amore

Uma vez descrevi a vida em forma de potinhos. Como seria bom ter potinhos disponíveis com amor, saúde, alegria, ombro amigo, bom humor. Mas a verdade é que não temos uma estante repleta de potinhos com sabores e sentimentos da vida à nossa total disposição para quando precisamos.

Não literalmente.

Mas por que não podemos criá-la, dentro de nossas mentes? Criá-la de uma forma que podemos utilizá-la e transformar a nossa vida em algo mais saboroso, mais leve, mais feliz?

Por que não acordar em um dia chuvoso e abrir o potinho da disposição?

Por que não terminar um dia difícil, cheio de problemas, abrindo o potinho da resiliência?

Por que não transformar um dia bom em um dia ótimo, abrindo o potinho da realização?

Por que não recostar a cabeça aliviado abrindo um potinho da calma e tranquilidade?

Infelizmente, não podemos de forma fácil e automática escolher como será nosso dia, nossa semana, nosso humor. Não temos o poder de fazer algo triste virar feliz ou algo sem graça se tornar incrível num passe de mágica, é verdade. Mas por que não podemos cuidar de nosso coração com mais amor?

Por que não avaliarmos nossos sentimentos de forma mais realista e mais sensata?

Por que não curarmos nossas dores com nossas próprias forças e boa vontade?

Por que não tomarmos decisões difíceis quando elas, simplesmente, precisam ser tomadas por um bem muito maior?

Por que não transformarmos dificuldades em força, dores em mudanças, tristezas em coragem?

Sei que nada disso é fácil. São vidas complicadas, decisões importantes, problemas em cima de problemas.

Mas que eles se tornem força para que a gente consiga ter uma vida mais alegre, mais bem humorada, menos sofrida e cheia de reclamações e mais divertida, leve, repleta de voltas-por-cima e rir-da-desgraça-inevitável.

Que exista um pote cor de rosa fluor, pink, bem forte e vibrante, que transforme desânimo em energia para que a gente possa reverter nossas próprias vidas em histórias felizes.

É esse o potinho que quero, para mim e para você.

Sejamos felizes, seja lá quais forem os desafios que tenhamos que enfrentar.

Sejamos alegres. Isso que importa. Sempre.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Apenas mais um texto


Martha Medeiros sempre me inspira. Há alguns (significativos) anos eu descobri essa escritora do Sul e logo me identifiquei: contemporânea, simples, inteligente, coerente, amante de viagens e cinema e totalmente voltada às crônicas como gênero literário.

Pronto, logo queria ser como ela.

Não me prendo aos clássicos para firmar minha intelectualidade. Aliás, acredito que de intelectual não tenho nada mesmo, a não ser uma dose generosa de inteligência aliada a bom senso – que não é e nunca será suficiente e que me falta nas horas de maior necessidade, obviamente.

Nesse meio tempo, conheci Adriana Falcão. Mágica, viajante, aquela dose de poesia que nos alimenta diária ou periodicamente. Ainda assim, contemporânea, fácil mas com aquela fantasia e sonho que todo pisciano (culpada!) adora.

Como costumo ser uma conselheira de relacionamentos – sem qualquer conhecimento empírico a respeito que o valha – Ivan Martins começou a me encantar, logo que se tornou colunista no auge de uma sólida carreira jornalística. Ele fala apenas de relacionamentos, 90% das vezes afetivos (quando não, geralmente ele insere em algum momento algo relacionado a ele no seu texto/história). Ele analisa experiências próprias ou alheias de uma forma muito, muito madura e racional, mas deixando evidente todo seu lado sensível, humano e até carente quando precisa – apesar de ser raro, ele parece já ter passado da fase que confunde carência com qualquer outro sentimento há bastante tempo.

Enfim, cá estou eu, de férias e de costas para o mar, de frente para um jardim com pouca variedade de plantas mas que serve de cenário para minha vida desde – literalmente – meu nascimento, escrevendo um texto que fugiu de sua ideia inicial lá no segundo parágrafo.

Acredito que queria apenas escrever, compartilhar algo com meus inúmeros (2 ou 3? Talvez 4?) leitores do meu blog, e acabei discursando sobre três das pessoas que admiro e nas quais me inspiro constantemente. Comecei querendo falar sobre alguma ideia que estava passando em minha cabeça no momento em que liguei o notebook, mas fato é que se passavam umas 12 ou 13 ideias diferentes e uma mente inquieta sempre produz algo. Por que não algo totalmente não planejado?

Não planejado, espontâneo, inusitado. Adoro a vida assim. E, então, talvez tenha surgido no penúltimo parágrafo de um texto nada planejado, o plano para o próximo. Vida de quem escreve é assim mesmo. E eu gosto bastante disso.


domingo, 22 de dezembro de 2013

Não existem finais felizes

Mari D'Amore

Nos últimos tempos, todos os anos terminam com “finalmente” e “comece logo o próximo” em minha vida.
Sonho com mudanças radicais que venham por meio de uma simples queima de fogos na praia. Parece um alívio terminar um ciclo difícil e enxergar a possibilidade do novo ter tudo melhor, tudo diferente.
Parei com isso.
Parei porque cada ano parece ser pior que o anterior, com problemas e desafios maiores, frustrações maiores, perdas maiores.
Parei porque o que acabei de dizer pode não passar de uma impressão muito particular minha - mas que ninguém me diga isso, afinal, eu sei onde o meu calo aperta e não aceito minimizações de minha dor por terceiros.
Parei porque acreditar que é preciso um ano terminar para as mudanças acontecerem, pode ser um facilitador da minha insanidade e insatisfação permanentes.
Parei porque finais de ano são sempre difíceis. Reclamar, sofrer, se isolar não resolverá nada.
Finais são sempre dolorosos. De ano, de projeto, de relacionamento, de histórias, de vida, de sonhos.
Não há finais felizes, os finais são a parte mais triste, já disse o poeta Shel Siverstein.
Se é o fim, será triste. Será doloroso. Deixará saudade ou qualquer outro sentimento difícil de lidar.
É para isso que os finais existem: dar um ponto final, que irá sempre causar tristeza ou estar ligado a algo muito triste. Ou negativo. Ou frustrante.
Então, vamos deixar os finais de lado, esquecer do quão tristes eles costumam ser.
Vamos então apenas torcer para caminhos alegres. O final a gente já sabe do que se trata mesmo.
Então, já que os finais nunca são felizes eu quero, por favor, felizes começos e meios. Obrigada.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Um passo de cada vez

Google

Era um medo diferente. Não era medo de morrer ou de sofrer.
Não era medo de sentir saudade ou medo de perder uma oportunidade.
Ela sentia um medo plural, um medo permanente.

Era medo de se arrepender, mas ao mesmo tempo não era.
Era medo de sonhar, mas ela continuava sonhando.
Ela tinha medo de se sentir carente, mas não de ficar sozinha. Era medo de solidão e não de estar só.

Ela tinha medo de perder, mas tinha também de ganhar. E não saber o que fazer.
Não era um medo proibitivo, mas talvez um medo impeditivo. Ela nem compreendia bem a diferença.
Ela sentia medo. Era assim que conseguia definir.

Era um freio, uma preocupação, uma dorzinha de cabeça.
Era um jeito de fazê-la pensar duas vezes antes de uma atitude. Ou 3, ou 4...
Era algo que a segurava no 1º degrau, mesmo ela sabendo que poderia ir seguramente ao 2º, 3º, 4º, 5º.

Ela sentia medo. O medo tomava conta. Mas muitas vezes ela simplesmente o combatia.
Era capaz de tomar atitudes descabidas, corajosas. Mas o medo batia à porta no instante seguinte.
Por um lado, era um medo saudável. Por vários outros, um medo injusto.

Não era medo de ser feliz. Era medo de ser e não sentir.
Não era medo de chegar lá. Era medo de chegar e não identificar.
Talvez era medo de ser quem ela era, ou de negar o que sempre foi.
Era medo de se sentir presa, mas existia medo de ser totalmente livre para sempre.

Era medo como tantos outros, e dificilmente desapareceria.
Não a impedia de sentir outras coisas, mas estava sempre presente.
Era amor com medo, entusiasmo com medo, alegria com medo, surpresa com medo,  borboletas na barriga com medo.

Era um medo constante, vezes construtivo, vezes enlouquecedor.

Mas ela sentia medo. Sempre. Em todo e qualquer instante.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Vida real

Mari D'Amore

Houve um momento em que tudo mudou.

O simples virou fantástico, a preguiça virou vontade, o nada virou algo.

Tudo se tornou diferente. E melhor.

Porque não dá para só querer, só imaginar. Tem que fazer, tem que ser, tem que acontecer.

E aconteceu.

Deu vontade de sorrir, deu vontade de viver.

Deu fome, deu sede, deu alegria.

Tinha que ser e tinha que ser na hora certa. Agora.

Tinha vento, tinha sol, tinha outono com flores de primavera.

Tinha risadas, tinha careta, tinha palavrão.

Tinha piada, tinha música. E era letra e melodia.

Tinha curiosidade. Tinha coragem. Tinha desejo.

Causava arrepios, frio na barriga. Borboletas por todo o corpo.

Tinha certeza, mas tinha perguntas.

Doía, coçava, arrepiava, remexia.

Era bacana. Era engraçado. Era bom.

Era interessante.

Era algo, era real. Não era sonhar, não era imaginar, não era só querer, mas realizar.

Simplesmente, era.

É. 

domingo, 1 de setembro de 2013

O limite do tempo

Mari D'Amore
Se aquele dia tivesse mais algumas horas, eles poderiam fazer muito mais.
Poderiam se beijar mais.
Poderiam dar abraços mais longos.
Poderiam se olhar mais e reparar mais detalhadamente na cor dos olhos um do outro.

Poderiam fazer mais panquecas ou tomar mais algumas cervejas.
Poderiam tirar as roupas, e colocá-las novamente. E tirá-las mais uma vez.
Poderiam contar piadas, tirar sarro um do outro.
Poderiam rir mais, até chorar em algum momento.

Poderiam falar mais sobre o filme que assistiram. Podiam assistir mais um.
Poderiam cochilar um pouco mais no peito um do outro.
Poderiam detalhar melhor o que tinham a fazer no dia seguinte.
Poderiam lembrar de mais algumas coisas importantes que precisavam contar.

Poderiam fazer listas. De músicas ou livros favoritos. De lugares a visitar. De famosos mais bonitos. De filmes com Jack Nicholson.
Poderiam brigar por mais algumas opiniões diferentes. Poderiam discordar mais algumas vezes. Poderiam somar mais algumas pequenas mágoas.
Poderiam fazer mais alguns planos, poderiam mudar mais algumas vezes de ideia.
Poderiam também fazer algumas surpresas um para o outro, contar mais alguns segredos.

Poderiam cantar mais algumas músicas, fazer um pouco mais de bagunça.
Poderiam fumar mais alguns cigarros, comer mais alguns brigadeiros.
Poderiam reclamar mais um pouco da vida, falar mal de mais algumas pessoas.
Poderiam discutir mais assuntos cotidianos. Poderiam até falar de política, futebol ou a situação na Síria.

Poderiam organizar livros, acender velas.
Poderiam passar hidratante nas pernas. Ou melhor, ela passar e ele assistir.
Poderiam comentar sobre o cheiro da pele um do outro.
Poderiam falar sobre a cor das unhas dos pés dela. Ou sobre a maciez do seu cabelo.

Poderiam falar sobre como aquela camisa verde ilumina os olhos dele ou como ele fica lindo vestindo um blazer.
Poderiam tomar decisões. Poderiam fazer do dia uma amenidade.
Poderiam matar as saudades um do outro. Poderiam criar mais motivos para sentir saudade.
Poderiam fazer barulho. Poderiam pedir silêncio.

Poderiam se declarar, poderiam se animar, poderiam se consolar.
Poderiam ler mais sorrisos e olhares.
Poderiam ser mais felizes, poderiam até destruir tudo.
Mais algumas horas poderiam ter feito toda a diferença. Se eles tivessem tido esse privilégio.


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Alguém

Mari D'Amore

A chamavam de calma.

Diziam que ela era o exemplo de paciência.

Falavam que ela era tranquila e zen.

Costumavam perguntar a ela se meditava. Se praticava ioga. Se seguia alguma religião. Se tomava chás e até se usava algum medicamento.

Diziam que ela era doce. Falavam de liderança, de segurança, de maturidade, de força.

Mas não diziam a ela que tudo ficaria bem.

Não estendiam a mão.

Não davam o ombro, não enxugavam a lágrima.

Não sabiam dos sapos que engolia diariamente.

Não se davam conta das mãos trêmulas que ela tinha em certos momentos.

Não sentiam a dor que ela sentia no estômago. E nem na cabeça. E nem nas costas. E nem na alma.

Não notavam seu isolamento. Não ofereciam um abraço.

Não usavam palavras motivadoras.

Não ofereciam carinhos gratuitos.

Não notavam seus batimentos a 150, sua pressão a 14/10.

Não sabiam que ela chorava no banheiro. Não sabiam das madrugadas com brigadeiro.

Não prestavam atenção nos detalhes. Na falta de maquiagem. Nos olhos cansados.

Ela engolia os problemas, guardava as mágoas, segurava a onda. Do jeito que dava.

Mas ia acumulando em si uma série de contradições, mentiras, cansaços, desilusões, descrenças, insatisfações, medos, indignações, frustrações, dúvidas...


No final, ela era assim... como dizer, como explicar, como definir? Ela era assim, uma pessoa... normal. 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Por inteiro

Emogin

Ela não sabia ser metade.
Não sabia ser meia-amiga, meio-indiferente, meio-termo, meia-noite ou meio-dia.
Ela não sabia amar pela metade, confiar pela metade, respeitar pela metade.
Ela não sabia trabalhar meio-período ou cabular meio expediente.
Ela não comia pizza meio a meio, muito menos meio brigadeiro.
Ela não se dedicava pela metade, não chorava pela metade, não via filme só até a metade.
Ela não partia o pão ao meio. Ela não tomava meia xícara. Ela não bebia meia dose.
Ela não queria metade de um par, meia dupla ou meio conjunto.
Metade para ela nunca servia.
Nunca serviria.
Ela não dormia em metade da cama.
Ela não abria metade da porta.
Ela não tomava meias medidas.
Ela não escrevia meio parágrafo, não lia meio livro, o e-mail já incomodava de certa forma.
Ela meio que entendia as meias palavras, mas não aceitava os meios termos.
Ela não investia meia mesada e nunca aceitou meio salário.
Ela nunca deu metade do coração, e nunca aceitou menos do que um inteiro.
Meios beijos, meios abraços, meios cafunés não entravam no roteiro.
Meias porções, uma média, meio copo de cachaça, meia taça de vinho, nada disso entrava no cardápio.
Metade para ela era só uma parte, insuficiente, do inteiro.
Meio era aquele obstáculo que se encontra no caminho, e não o destino final.
Metade não se oferecia. Metade não servia.
Ela queria duas metades, dois meios, duas porções. Ela queria tudo 100%.
Ela só topava uma metade quando sabia que a outra chegaria. Logo.
Ela tinha vontades inteiras, sonhos inteiros, forças inteiras e um coração completo.
Metade não servia, metade não preenchia.
Metade só decepcionava, metade ela não aceitaria.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um ponto de vista

Google

Ele a conheceu, ele a tratou com educação.
Ele reparou no seu sorriso. ele sorriu para ela.
Ele a fez rir, ele se deixou fazer rir.
Ele se encantou.
Ele começou a tomar café por causa dela, ele a ofereceu um bom café.
Ele passou a ouvir as músicas que ela gostava, ele começou a ver filme francês.
Ele decidiu ler um romance, ele escrevia cartas e recados.
Ele viu beleza nas flores, ele viu beleza no espelho.
Ele trocou as cores da camiseta.
Ele mudou o estilo do cabelo.
Ele comprou um novo perfume.
Ele elogiou cada palavra dela, ele criticou os sapatos, ele elogiou o vestido.
Ele brincou de ser amigo.
Ele tentou conquistar seu coração.
Ele usou palavras bonitas, ele aprendeu palavras difíceis.
Ele brindou sua companhia, ele brincou com sua autoestima.
Ele se divertiu com a conquista.
Ele deixou a toalha jogada no chão.
Ele não respondeu as mensagens.
Ele exigiu sua atenção, ele reacendeu seu próprio coração.
Ele voltou a acreditar, ele voltou a se amar.
Ele aprendeu a se valorizar, ele passou a se valorizar demais.
Ele deixou o sentimento dela de lado.
Ele brincou mais do que deveria, ele perdeu seu amor em um dia.
Ele na verdade não se importa, ele na verdade nem sabia.
Ele apenas se importava consigo, ele nem ao menos percebia.
Ele jamais a teria de volta.
Ele realmente a perderia.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Por um milhão de segundos a mais

Marianna D'Amore


Com olhos que refletiam o mundo e mãos que cobriam o corpo todo, ele queria mais.

Ele se despedia, mas queria dizer mais, queria ficar mais, queria aprender mais, queria compartilhar mais.

Ela chorava, mas sorria em compreensão. Ele não soltava seu corpo, nem por um segundo e dizia que iria voltar.

Ela não acreditava, sabia bem lá no fundo do coração que era um adeus definitivo, que aquela história tinha que ter um fim e era nesse ponto que ela chegava, naquela noite fria de inverno.

Havia sido um filme cult francês, cheio de magia e cor, fantasias sem fim, diálogos eternos e poesia em meio ao caos. Havia sido o contrário de um conto de fadas, ou de vampiros, havia sido uma história real, mas que parecia um roteiro, criado na mente de um pisciano, misturando água com fogo, risada com choro, dúvida com vontade.

E, como um filme, tinha um final. Não poderia seguir mais do que aquilo. Se fosse um autor, seria aquele momento em que a criatividade continua a fluir mas o editor diz que não há mais tempo pois é preciso um desfecho, ou a hora que a produtora entra na sala gritando que o dinheiro acabou e que a história também precisa acabar.

Era como uma valsa em uma noite de celebração. Em que as luzes fazem brilhar duas pessoas naquele momento mágico,  sendo o centro das atenções, com música, encantamento, sorrisos, mas que tem 3, 4 ou 5 minutos de duração, até o silêncio breve tomar conta em encerramento.

Dali em diante, não adiantava sentir saudades, frio, desejo, ansiedade ou tristeza. Dali para frente não haveria mais nada, não se construiria mais nada, não haveria mais medo de que terminasse, pois já havia chegado ao fim.

Não haveria mais discussões, filosofias, reclamações, pedidos ou exigências. Não haveria mais cobranças, presentes, surpresas ou frustrações. Não haveria mais ele, nem ela. Não haveria mais “nós”.

Ele decidiu mudar de ideia. Ela decidiu ficar com raiva, em uma tentativa de atingir o conformismo. Ou a conformidade. Ou a sensatez. Ou a paz.

O melhor que podiam fazer era tentar achar alguém que os amasse exatamente como eles eram. E eles acharam. E mesmo assim decidiram que precisaria ter um fim.

Não se tratava de bom senso, não se tratava de sentimento, não se tratava de loucura. Era uma decisão. Burra, equivocada, madura, coerente... Eles não sabiam exatamente.

Parecia uma mania de ser infeliz. Podia ser medo de um futuro incerto. Talvez fosse imaturidade pura e simples.

Eles disseram adeus mais uma vez, mas sem soltar um o corpo do outro. As mãos dele continuavam segurando os cabelos dela, as mãos delas apoiadas na cintura dele agarrando a camiseta, como numa tentativa de evitar que ele saísse dali.

Ainda sim, olhavam um para o outro dizendo que aquele era o fim.
Ninguém entendeu, ninguém aceitou. Mas eles queriam assim.

Eram beijos, carinhos, sorrisos, abraços. Eram declarações de amor, pedidos de desculpas, promessas de saudade. Mas ainda sim “adeus”.

Ficaram ali, naquela varanda a noite toda, um agarrado ao outro, repetindo diversas vezes que estavam se despedindo.

E assim seguiu o dia seguinte. Abraços, mãos dadas, beijos e diversos “adeus”. E assim foi mais uma semana e completou-se um mês. Juntos, próximos, com mãos que não soltavam um ao outro. Mas repetindo o adeus.

Decidiram assim, tinham que manter assim. Mas passaram mais um tempo precisando um do outro, reivindicando um ao outro, desejando um ao outro, gostando um do outro.

Ali continuam, querendo dizer adeus, mas incapazes de se separar. Dizem ter se mantido firmes na decisão do fim, mas separação já é outra história.


Não desgrudam, não cortam o laço. Mas mantiveram a decisão do fim, do encerramento. Só não conseguem editar a cena final, escolher a trilha perfeita, escrever a última fala. Mas prometem fazer isso em breve. Porque, simplesmente, não querem mudar de ideia.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Deixar para trás


Marianna D'Amore

Ela foi até a esquina. Passos curtos e lentos até logo ali, a esquina.

Depois, ela foi até a esquina novamente,  mas com passos um pouco mais longos, e decidiu ir um pouco mais adiante.

Foi então que ela decidiu que os passos deveriam ser mais ágeis, e que deveriam levá-la metros e mais metros mais longe.

Os metros passaram a ser quilômetros e as vontades passaram a ser barreiras. Primeiro alcançadas e, em seguida, quebradas.

Não importava muito se era preguiça ou alegria. Se era noite ou dia. Se era com foco ou distraída. Se era vontade ou energia. Se era o que precisava ou o que queria. Ir adiante era o que importava.

Ela não deixava de olhar para trás, mas nada a impedia. Ela não tinha grandes pretensões, mas não permitia desistir. Foi assim, dia a dia, mesmo quando os passos eram dados à luz da lua.

A velocidade não fazia grande diferença e nem se os passos eram os mesmos do dia anterior. O que ela não parava era de caminhar.

Caminhando, passo a passo. Primeiro, com objetivos determinados, algumas vezes sem saber exatamente aonde queria chegar, mas ela não parava, não desistia. Desanimar, de vez em quando, mas isso não a fazia parar.

Na maioria das vezes, sozinha. Muitas vezes cansada, outras até entristecida. Às vezes alegre, outras feliz, mas sempre indo em frente.

Era fazer querendo o contrário, mas querendo aquilo também, de certa forma.

Muitas vezes doía. Na verdade, doía sempre. Era quase triste, e sempre apertava o coração. Mas ela seguia, passos e mais passos diariamente, porque assim tinha que ser.

Assim ela foi, dia após dia, noite após noite. Com dor, com saudade, mas com força. Era ela com ela e por ela. Passo a passo.